O Shitoryu no Rio Grande do Sul possui uma trajetória complexa, marcada primordialmente por diferentes interpretações históricas, mudanças de linhagem e processos de reorganização institucional. Compreender essa história é essencial para distinguir o Karate-dō Shitō-ryū de sistemas híbridos ou adaptações modernas que utilizam o nome do estilo sem vínculo técnico direto com sua matriz fundada por Kenwa Mabuni.
As origens e os equívocos iniciais
Entre as décadas de 1960 e 1970, alguns relatos associaram o nome de Hinata Shunji ao Shitō-ryū no Rio Grande do Sul. No entanto, a análise técnica indica que Hinata Shunji foi, sobretudo, um destacado mestre de Judô, e sua atuação no Karate-dō ocorreu de forma pontual e sem base estruturada em uma linhagem clássica do Shitō-ryū. O Karate ensinado por ele apresentava características híbridas, com maior proximidade técnica ao Shōtōkan, inclusive no repertório de kata, apesar de em certos momentos ter sido denominado como Shitō-ryū.
As conexões marciais de Hinata Shunji estiveram mais relacionadas a mestres como Akamine Sei-ichi e Taniguchi Akira, cujas influências se aproximam dos estilos Shinkan-ryū e Gōjū-ryū, não havendo evidências de vínculo direto com o Shitō-ryū tradicional. Esses fatores contribuíram para interpretações equivocadas sobre a introdução do estilo no estado.
A chegada do Shitō-ryū ao RS
A introdução efetiva do Shitō-ryū de linhagem Mabuni no Rio Grande do Sul ocorre apenas em meados da década de 1990. Nesse período, destaca-se a atuação de Luiz Gilberto Ribeiro, originalmente praticante de Shōtōkan, que teve contato com o Shitō-ryū em São Paulo e decidiu dedicar-se exclusivamente ao estilo.
Luiz Gilberto Ribeiro manteve vínculo inicial com a Hayashi-ha Shitō-ryū Kai, atuando como representante do estilo no RS. Ao longo do tempo, também esteve ligado a outras organizações internacionais, como a Seiden-kai International Karate-dō and Kobudō Association e a World Union Budō Sosa-kai (Sōsa-ha Shitō-ryū). Atualmente, ministra aulas por meio da Associação Brasileira de Artes Marciais Shinsei-ryū, sem vínculo formal com federações internacionais tradicionais do Shitō-ryū.
Como atleta e instrutor, Luiz Gilberto Ribeiro teve papel importante na difusão inicial do estilo no estado, formando praticantes relevantes, entre eles Márcio Neri Chagas, que posteriormente migrou para o Muay Thai e o MMA, e Denis Augusto Cordeiro Andretta, que permaneceu no Karate-dō Shitō-ryū.
A formação de Denis Andretta no Shitō-ryū
Denis Andretta iniciou sua prática de Karate-dō em 1991 no estilo Gōjū-ryū, sob orientação de Arthur Xavier de Oliveira Filho, na ACM Porto Alegre. Em 1994, passou a treinar Shitō-ryū com Mário Augusto Januário da Silva e, posteriormente, com Luiz Gilberto Ribeiro, quando este atuava como representante oficial do estilo no Rio Grande do Sul, seguindo a linhagem Hayashi-ha Shitō-ryū.
Em 1999, Denis Andretta recebeu a faixa preta e autorização para lecionar. Nesse período, houve a transição da Hayashi-ha Shitō-ryū para a Seiden-kai International Karate-dō and Kobudō Association, organização coordenada no Brasil por José Vitorino de Aguiar. A Seiden-kai possuía vínculos técnicos com a Nippon Karate-dō Shitōkai e era liderada internacionalmente pelos irmãos Jesse Canedo e Ruben Canedo, ambos alunos de Murata Nobuyoshi e Iwata Manzō, além de praticantes de Okinawa Kobudō na linhagem de Matayoshi.
Transições e afiliações internacionais
No início dos anos 2000, com a saída de José Aguiar do Brasil e o afastamento temporário de Luiz Gilberto Ribeiro, Denis Andretta passou a buscar novas referências técnicas. Esse processo o levou a integrar a Sōsa-ha Shitō-ryū, vinculada à World Union Budō Sosa-kai, sob orientação dos irmãos Horácio Machado e Javier Machado, da Argentina. Nesse período, aprofundou seus estudos em Karate-dō, Ryūkyū Kobudō e Iaidō Eishin-ryū.


Em 2007, com o retorno de José Aguiar ao Brasil, Denis Andretta retomou o trabalho na Seiden-kai, treinando diretamente com Aguiar e com Ruben Canedo, que realizou seminários de Karate-dō Shitō-ryū e Okinawa Kobudō no país. Denis Andretta foi nomeado representante da Seiden-kai no Rio Grande do Sul e, posteriormente, responsável nacional pela entidade.
A Shitōkai e a consolidação institucional no RS
Posteriormente, José Aguiar decidiu integrar a Nippon Karate-dō Shitōkai, levando Denis Andretta a buscar o mesmo caminho. Nesse processo, passou a contar com o respaldo técnico de Ivonei Dambros, então vice-presidente da Associação Shitōkai do Brasil. Em 2015, como exigência formal da entidade, Denis Andretta fundou a Associação Gaúcha de Karate-dō Shitō-ryū (AGKS).
Após divergências administrativas e uma cisão nacional, Denis Andretta manteve sua atuação ao lado de Ivonei Dambros, passando a integrar a Shitō-ryū Karate-dō Brasil (SKB), entidade vinculada à Pan-American Shitō-ryū Karate-dō Federation (PSKF) e à World Shitō-ryū Karate-dō Federation (WSKF), sob liderança técnica de Satō Shōkō, hanshi 9º dan.


O Shitō-ryū no RS atualmente
Atualmente, o Shitō-ryū no Rio Grande do Sul é praticado dentro de uma estrutura técnica alinhada à WSKF, tendo como principais referências Satō Shōkō, Allen Tanzadeh (kyōshi 8º dan) e Ivonei Dambros (jun-shihan 6º dan).
Denis Andretta, juntamente com seu principal aluno Rafael do Canto Ilhescas, atua no ensino do Karate-dō Shitō-ryū e do Ryūkyū Kobudō no RS, ambos com graduações reconhecidas internacionalmente e registradas na World Shitō-ryū Karate-dō Federation, entidade máxima do estilo no mundo.
Conclusão
A história do Shitō-ryū no Rio Grande do Sul demonstra que a autenticidade do estilo está diretamente ligada à linhagem, à formação técnica e à vinculação institucional. Conhecer os mestres, compreender as transições e identificar as entidades reconhecidas é essencial para quem busca praticar o Shitō-ryū de Kenwa Mabuni no estado.
